sexta-feira, 13 de abril de 2007

O Belo em Platão

Discóbolo, escultura Grega

“ É talvez lisonjeiro ser eu a iniciar-te, também a ti, Sócrates, nos mistérios do amor; mas no que respeita ao último grau a contemplação que para quem segue o bom caminho é o seu fim, não sei se a tua capacidade chega para tanto. Não obstante, vou continuar, disse ela, sem deixar esfriar o meu zelo; tenta seguir-me, se puderes. Quem quer que deseje, prosseguiu ela alcançar tal fim pelo bom caminho deve principiar, desde a sua juventude, por procurar os corpos belos. Desde o começo, se for bem dirigido, deve amar apenas um único corpo e, a propósito dele, engendrar belos discursos. Depois observará que a beleza de um corpo qualquer é irmã da beleza de um outro; com efeito, se convim procurar a beleza da forma, só um bronco não veria que é a mesma e idêntica a beleza de todos os corpos. Quando estiver convencido desta verdade, deve tornar-se amante de todos os corpos belos e fazer passar a segundo plano, como coisa pouco valiosa, esse amor violento de um só, que apenas merece desdém. Em seguida impõe-se que considere a beleza das almas como mais preciosa que a dos corpos, de tal modo que uma alma bela, mesmo num corpo desprovido de graças, lhe baste para atrair o seu amor e as suas solicitudes e o leve a discursos capazes de tornarem melhor a juventude. Por aí é levado a olhar a beleza das acções e das leis, a ver que esta é semelhante a si mesma em todos os casos e, por consequência, a encarar a beleza do corpo como coisa pouca. Das acções humanas passará às ciências e também reconhecerá nelas a beleza; chegado deste modo a uma visão mais larga da beleza, deixará de ater-se à beleza de um único objecto e deixará de amar, com os sentimentos estranhos e mesquinhos de um escravo, uma criança, um homem, uma acção. Voltando, desde então, para o oceano da beleza e contemplando os seus múltiplos aspectos, produzirá incessantemente belos e magníficos discursos e os pensamentos jorrarão fluentemente do seu amor da sabedoria, até que, por fim, o espírito fortalecido e engrandecido aperceba uma ciência única, que é a ciência do belo. Tenta, disse ela, prestar-me a maior atenção de que sejas capaz.
Aquele que, no caminho do amor, depois das contemplações das coisas belas numa gradação regular, se tiver erguido até aqui, ao chegar ao termo supremo verá subitamente uma beleza de qualidade maravilhosa…”

Banquete, 28

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